sexta-feira, 3 de junho de 2011

Mais Repetição

Há diferentes tipos de repetição. A repetição pura e simples é chamada de “epanalepse”. E é esta que temos visto até agora. Além do “quiasmo”, que é a repetição invertida. Exemplo: “No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho” (Drummond de Andrade).

A repetição de uma palavra no início de um verso e no início do seguinte é chamada de anáfora.

Exemplo:

“É preciso casar João
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos”

(“Poema da Necessidade”, Carlos Drummond Andrade)

E porque fez tanta coisa ou nada fez
Ou não multiplicou pães pra toda gente
Ou porque não tinha trinta e um dinheiros
Ou porque não havia vinho suficiente.

(De um Evangelho de Um Cristo, Ricardo Lopes)

A repetição de uma palavra no final de dois ou mais versos consecutivos chama-se epístrofe ou epífora.

“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
Á parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”

(Poema de Tabacaria, Álvaro de Campos)




Reduplicação é a repetição de uma mesma palavra ou expressão duas vezes seguidas no mesmo verso.

“Não, não quero nada
Já disse que não quero nada”

(Lisbon Revisited, Álvaro de Campos)

O exemplo acima possui uma reduplicação e uma epífora ou epístrofe.

Já a repetição de uma palavra no início e no final deste mesmo verso é chamada de epanadiplose

“Nada me prende a nada
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo”

(Lisbon Revisited, Álvaro de Campos)

“Não vim trazer a paz na Terra, vim
trazer espada, vim trazer a guerra”.
(De O Evangelho de um Cristo, Ricardo Lopes)

E a repetição no final de um verso e no início do seguinte é chamada de anadiplose.

Transformou àgua em vinho,
Vinho em vinagre”.

(Do Evangelho de um Cristo, Ricardo Lopes)

Observe como seria diferente se o poema acima, ao invés de se apresentar desta forma fosse escrito do modo abaixo:

“Transformou água em vinho
e este em vinagre”.

Ou, ainda, desta outra forma.

“Transformou água em vinho
e este último em vinagre”.
No entanto, como já dissemos, pouco importa o nome de tais repetições. O importante é saber de sua existência e como elas podem ser aplicadas.

Exercício

Escolha algumas formas de repetição. Procure construir um ou mais poemas com estas repetições

Exemplo:

Para não perder o hábito, uso, novamente, da expressão tão comum que é “eu te amo”.

1º exercício

Se eu te amo

Se eu te amo ? Eu ?
Se eu te amo ?
Eu ? Eu
não.

2º exercício

Eu não te amo

Eu não te amo. Não
Amo a ninguém. Não
Amo. Amo não Eu
Não amo nem eu não.
Amo não.

Tais exercícios não são necessamente poemas, mas exercícios. Servem para treinar a técnica, aprendendo a controlá-la, de modo poder utilizá-la quando necessário.
O importante é estar treinado de modo a que, quando nós quisermos escrever algo, possamos utilizá-las. Ou que as tenhamos de tal maneira apreendidas, de tal modo, que elas venham “naturalmente”.

Ricardo Lopes é professor, poeta e dramaturgo

Não deixe de postar o seu exercício e de indicar este blog a quem possa se interessar pelo mesmo.

Para um atendimento particular sobre a prática poética, entre em contato pelo telefone (Rio de Janeiro/Brasil) 0 21 22011212 / 021 94082693

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